quinta-feira, 13 de março de 2008

O medo dos ignorantes.

A internet de fato revolucionou muita coisa. Entre tantas, está a possibilidade de se escrever o que quiser, e dispor o escrito para todo o mundo. Mas há quem se incomode com isso. Diante de tantas revistas eletrônicas que se titulam “revistas literárias”, podemos ouvir vozes que reclamam da falta de “critério literário”. Estas vozes, em grande parte acadêmicas, parecem mais latidos em mês de agosto. Partem de “detentores” do conhecimento intocável, que Cérberos da “intelectualidade”, acham mesmo cumprir uma função digna ao “proteger” o status quo da “literatura para poucos”.
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Não acho sinceramente, que qualquer coisa escrita seja literatura. Obviamente, existem requisitos formais para o estabelecimento de um poema, um conto, ou qualquer outro texto literário. Entretanto, os milhares de blogues que hoje estão no ar, nada mais são além dos caderninhos que nós mesmos, adolescentes até pouco tempo atrás, usávamos para nossos rabiscos, como forma de expressão dos nossos pensamentos – sejam eles maduros ou não (mas quase fruto de nosso próprio tempo – sem as tecnologias hoje tão acessíveis). Lembro-me de quando minha mãe reclamava que eu ao invés de copiar a matéria em sala de aula, usava meu caderno para ficar rascunhando qualquer coisa, com poemas, micro-contos, pensamentos ou devaneios de qualquer ordem. Por isso, questiono: quem somos nós para abrir a temporada de caça aos escritos na internet julgando-os ruins ou bons? Quais seriam os critérios de análise do belo e do feio? E por fim, será que estaríamos valorizando a boa literatura e motivando os iniciados a assumirem uma responsabilidade maior com o estudo do nosso idioma a fim de avançarem na sua escrita?
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Acontece que, em décadas passadas, mas recentes, a literatura tinha seu espaço em grande parte dos veículos de comunicação. Autores como Clarice Lispector projetaram-se a partir de seus fragmentos em jornais e revistas. Mas hoje, aonde está a literatura na mídia? Mais especificamente: aonde está a literatura na mídia impressa? Praticamente sumiu. As exceções nos impedem a generalização, mas a situação nos permite sim, dizer com toda a tranqüilidade – ou inquietação, que a mídia perdeu seu interesse pela literatura, e que, quando tem, o faz por sua relação íntima com o mercado editorial pornograficamente prostituído da literatura burguesa. Basta entrarmos numa livraria de médio ou grande porte, para nos depararmos com estantes cheias de “auto ajuda” - como Farmácias de chocolates. A literatura à serviço da alienação, esta sim, está em todos os cantos. Outdoors, colunas “cult” de revistas e jornais “pensantes” e nas indicações de pseudo-intelectuais dos programas de auditório, como o Faustão, que agora deu para indicar leituras em meio à burrice do Domingão. E pasmem: essa literatura, nada inteligente, é que é a moda da vez, em detrimento da escassez dos clássicos, que estes sim, nos ajudavam a formar opiniões independentes e suficientes de si mesmas. Mas com que intenção? Não precisamos nem responder...
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A perspectiva com o boom da escrita na internet é ampla, maravilhosamente enriquecedora. Se antes pensávamos que o problema era a falta de escrita, hoje vemos que o problema é a escrita em demasia. Mas para que se preocupar com isto? É saudável sim que muitos escrevam, e que a partir da seleção dos próprios leitores, os escritores se incomodem com a qualidade de seus textos. Se em uma mídia monopolizadora, um Jô Soares pode ser uma referência de conhecimento ambulante, na internet este mito se desfaz. Pois para garantir um público, o escritor “blogueiro”, irá buscar qualificar sua obra. Se queremos voltar aos tempos áureos (que nunca existiram) de uma produção literária boa, e em massa, temos é que permitir que se escreva, e lutar não para barrar a escrita, mas para impedir que governos façam coisas idiotas como pretensas “reformas” no idioma, quando nem o que se está ai para aprender, é ensinado. Por falar nisso, já pensaram na quantidade de dinheiro que as editoras iriam ganhar com as mudanças no idioma assim que começassem a reimprimir seus livros? Mas isso é assunto para outro artigo... Aqui quero tratar especificamente do medo que os “donos da escrita” sentem ao verem seu “patrimônio” tão bem guardado esfarelar-se diante da ruptura que os tempos contemporâneos estão proporcionando à comunicação. A questão não é simples. Não podemos banalizar a discussão, precisamos sobretudo problematizar a situação a partir dos elementos que nos surgem aos olhos – como um grito (por toda a sua intensidade), ao mesmo passo que não seria válido o fazer sem também vasculhar por novas informações que enriqueçam o debate. Como detetives, historiadores, analistas e críticos permanentes do mundo que está a nossa volta, e neste caso, o mundo literário (que está intrinsecamente relacionado com a humanidade nos seus mais amplos aspectos), devemos infantilmente questionar tudo que for possível e que não nos convencer. Neste anseio, o de buscar entender o que está acontecendo, é que se torna preciso compreender primeiramente a nossa condição social, para que entendamos o porque a burguesia, ou para os ouvidos mais sensíveis as “classes dominantes”, tentam tanto nos empurrar a falta de literatura ou a literatura emburrecedora. Depois, é preciso desmontar os avanços tecnológicos para separar o joio do trigo. Saber enfim, até que ponto a internet contribui para a sociedade, e até que ponto é útil para os mais abastados (os que nem sabem o que é internet afinal de contas). Por fim, sem buscar um método, podemos estabelecer algum caminho (como sugestão apenas – uma experiência), para nos aprofundarmos mais no tema. No próximo artigo – após esta singela introdução, tentarei fazer uma leitura, ainda que genérica – mas apoiada num conjunto coerente de argumentos, da situação dos leitores enfim. Inclusive dos “possíveis” leitores, e também dos que deixaram de ser leitores. Posto que ler é uma capacidade humana que basta um sopro para se desenvolver.

2 comentários:

Geruza Zelnys disse...

Gustavo!
primeiro parabéns pelo blog: está lindo e muito convidativo... sua escrita é pra lá de envolvente: não é pedante, não é impositiva; é sua e se coloca como tal já no título "as coisas que eu acho das coisas" que, inclusive, amei!

bem, mas não vim aqui para fazer uma crítica literária... rsss... vim, primeiro, pra pedir que não desanime, continue escre-vendo pra gente e, por último - porque o barulho vai ser grande - pra fazer eco ao seu texto:
DEIXEM O POVO ESCREVERRRRR!

grande abraço e sucesso sempre!
G.

Linda Graal disse...

uau!! que maravilha!! como é bom ler isso...partilho dessa opinião. bem, em muitos casos, uma lástima, mas acredito ser possível um caminho mais democrático com a internet e também vejo essa proteção da literatice (porque uma chatice)...como contralizadora. isso é muito delicado...também sabemos que a Literatura é feita por raros e para que realmente se obtenha um bom resultado é preciso muito muito trabalho, sobretudo de outras leituras fundamentais...pesquisa, enfim, e todos sabemos que as pessoas lêem pouquíssimo ainda...sobretudo os que se dizem escritores. há pessoas que não têm dicionários em casa e acreditam escrever poemas deixando tudo nas costas da licença poética...
mas, em contraposição...essa possibilidade de acesso à leitura literária que a internet tem proporcionado através de sites de excelência e revistas acaba por descentralizar esse movimento de "esconde-esconde" literário e quiçá fortaleça a formação de leitores e contribua para uma população menos embrutecida, menos ignorante.